sábado, 21 de setembro de 2024

Attack on Memory

 


De Camus: a terna indiferença do mundo.

sábado, 20 de agosto de 2022

Mil Fontes

In the flat field.

Moulding shapes no shame to waste/ And drag me there with deafening haste.


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Long Farewell

 


Our calm merged into desire and our desire into calm. We hardly noticed what was going on; as in a dream, one movement led to the next. We seldom touched one another and never kissed; our way of caressing was to lie side by side, breathing in and breathing out. I expressed my tenderness by talking a lot, Claire hers by listening to me and saying something from time to time.

 Peter Handke, Short Letter, Long Farewell, 1972. 


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

To Kill a Mockingbird

 


"O Atticus tinha razão. Certo dia disse que só conheceríamos realmente um homem quando calçássemos os seus sapatos e caminhássemos dentro deles. Para mim, estar na varanda dos Radleys foi o suficiente."

Harper Lee, Mataram a Cotovia, julho 1960.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Fallen Angels, 1995.

 


"Most people fall in love for the first time as teenagers. I guess I'm a late bloomer. Maybe I'm too picky. On May 30, 1995, I finally fell in love for the first time. It was raining that night. When I looked at her, I suddenly felt like I was a store. And she was me. Without any warning, she suddenly enters the store. I don't know how long she'll stay. The longer the better, of course."


domingo, 3 de janeiro de 2021

Tempo de S.O.S.


 S.O.S. perdidos, desencontrados, sozinhos! S.O.S. estamos todos desencontrados, estamos todos sozinhos, perdidos todos! S.O.S. sozinhos! S.O.S. desencontrados, S.O.S. perdidos, S.O.S. sós! S.O.S. sós! S.O.S.

S.O.S. é o sinal internacional de telegrafia a pedir socorro. Está formado pelas três iniciais da frase inglesa: "Save Our Souls", que quer dizer em português: "Salvai Nossas Almas". Estas três letras S.O.S. são as mesmas com que se escreve em português o plural de indivíduo isolado: sós. 


Não é só o momento-vivido-presente que é tempo de silêncio, de solidão, de S.O.S..

Já em 1915, Almada Negreiros afirmava: «O mundo inteiro está sozinho. Cada pessoa vive isolada no meio das multidões. As multidões são formadas por indivíduos, por numerosíssimos indivíduos isolados uns dos outros.

As palavras caem perdidas no chão. Sozinhos todos. Ninguém se entende. A humanidade inteira está reduzida à solidão de cada um dos seus indivíduos. Com quem comunicas tu? 

Não te perguntamos com quem tratas todos os dias, nem com quem falas, nem com quem vives, nem com quem dormes. Perguntamos-te unicamente com quem te entendes?

A primeira sugestão para que se criasse um sinal de angústia ou aflição foi emanada dos delegados da marinha italiana à conferência de Berlim de 1903. Propuseram S.S.S., D.D.D.S. (de "ship" barco) e do índico D (urgente), já admitido no Código Internacional. Em 1904, a Companhia Marconi propôs C.Q.D. ("Appel a Tour Urgent") - apelo a todos urgente -, sinal que foi admitido até que, em 1906, na Conferência de Berlim, se adoptou o S.O.S.. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

This is the way

 


"É assim que o mundo acaba/ Sem estrondo, num gemido."

                            (This is the way the world ends/ Not with a bang but a whimper.)

                                                                                                                      T.S. Eliot, The Hollow Men



terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Dias e dias

 


“Estar em casa

estar a estar

dias e dias”

Adília Lopes, 26-IV-2020 - 11h14

 

Aqui estamos, enclausurados dentro de paredes de betão, estamos e estamos, dias e dias, e ouvimos dizer que assim será melhor. Acreditamos, mal ao mundo virá sempre, somos solipsistas à força e cumpridores sem lei. Aqui estamos, aqui estamos a obedecer, como outrora, mas desta vez a questionar, direito nosso desde 74. A viagem faz-se para já aqui, a destempo, inesperada, o futuro virá, sabemo-lo, quiçá, mais bem inventado com o tempo sem uso que nos sobrará. É preciso não só barcos no mar como, entretanto, inventar futuro, futuro que julgávamos que viria sempre no dia seguinte, sem nada fazermos, antes “inventávamos o futuro para ainda haver futuro quando o não houvesse e a vida lhe pertencia”, agora, também, mas dentro de casa. Dias e dias. 


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Tanto faz

 


É simples e é fácil de contar. Também de se apreender. Vergílio Ferreira, no seu romance Nítido Nulo, publicado em 1971, lançou o repto, olhando para a paisagem do lado de fora da janela, empurrando-nos à liberdade do fazer, "porque o que importa é o fazer e não o que se faz. O que se faz serve só para justificar o fazer e assim tanto importa que se faça como não". Imagino, noutra janela, amplamente aberta, Mário Cesariny, de olhos fechados, fumando nem muito nem pouco mas sempre, preencher o retrato final, lendo solenemente, "afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício/ e cair verticalmente no vício". Depois, em todo o caso, imagino tudo o resto: o que cresce inconscientemente em nós.




quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 


A porta está fechada na palavra porta, para sempre.


terça-feira, 20 de outubro de 2020

Em Segredo

 



Mas temos o vinho

e temos as cartas:

essas que uma vez marcámos

em segredo

para que ambos perdêssemos

quando jogássemos

um

contra o 

outro.


José Carlos Barros

sábado, 16 de dezembro de 2017

Claridade dada pelo tempo



Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muitos brancas
intermináveis


(...)

Mário-Henrique Leiria


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Oliveiras





Don't walk away in silence,
don't walk away.

terça-feira, 8 de março de 2016

quarta-feira, 13 de maio de 2015

oitodocinco_2015


Há uma memória embaciada de outro outono,
cinzas no pátio,
o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.

A
08.05.2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Darq 18

A queimar o que resta da inocência.
04.02.2015



domingo, 1 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Montpellier



Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O roubo do presente




Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias border-/ine enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.

José Gil

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cromo

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar