segunda-feira, 5 de novembro de 2012

1/2 de vida



As coisas não se vêem por metade.
Ou passas e as fitas de repente
pousando um longo olhar de eternidade
que logo vai aos fumos da memória,
ou viverás com elas lentamente,
gastando-te com elas, nelas vendo-te
como em espelho que te sobrevive.

Mas o passar como quem visse tudo
e ali ficasse não ficando a vida
faz que as coisas se cubram de um cristal
opaco e as diluindo em corpo falso,
aquele que é quanto então mereces.


Jorge de Sena

17.07.1971


domingo, 9 de setembro de 2012

25 do oito

Quando ficamos como assim, a ouvirmo-nos e a falarmos-nos, somos capazes de descobrir muito mais do que todos eles, obedientes e assustados. Como aqui, assim, estas palavras a levarem esta voz fazem-nos saber que estamos juntos, mesmo quando não há uma sala com estas paredes e só conseguimos duvidar e duvidar desta verdade. Estamos juntos, mesmo quando nos separamos pelas ruas e, dentro de nós somos um exército de segredos, mesmo quando nos escondemos do mundo que desejámos e que desejamos indescontroladamente, desincomparavelmente, como um silêncio que mente e mente e não mente.
Estamos juntos no silêncio, apesar desta voz carregada por estas palavras, apesar das formas todas dos nossos corpos e dos desenhos que somos capazes de fazer com o olhar. As nossas mãos procuram-se à noite, dentro das luzes apagadas. Sabemos quem somos. Somos muitos e sabemo-nos reconhecer. Esperamos muito mais do que a madrugada. Temos a força de para sempre, aprendemos a renúncia de nunca mais. A disciplina está enterrada naquilo que não é medo, é força, e que nos protege, que nos protegemos a nós próprios. As palavras são pedras. As certezas perseguiram-nos e abrandámos para que nos alcançassem. Agora, controlamos pontes e quotidianos. Agora, esta voz dirige-se para o teu rosto. Nada nos é impossível. Nem mesmo o impossível nos é impossível. Explicamo-nos uns aos outros e, sem que ninguém nos perturbe, encontramo-nos sempre como agora, aqui, assim, como agora, aqui, assim.

sábado, 18 de agosto de 2012

Plenos Poderes


Difundi-me, não há dúvida,
troquei de existências,
mudei de pele, de lâmpada, de ódios,
tive que o fazer
não por lei, não por capricho,
mas sim por escravidão,
acorrentou-me cada novo caminho,
ganhei gosto à terra, a toda a terra.

E de repente disse adeus, recém-chegado,
com a ternura ainda recém-partida
como se o pão abrisse e de repente
fugisse da mesa toda a gente.

Sabe-se que o que regressa não partiu,
e assim na vida andei e desandei
mudando de roupa e de planeta,
habituando-me à companhia,
à multidão desterrada,
à grande solidão dos sinos.

                             Pablo Neruda

                                             

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

2 tropeções de ternura















 
É simples a separação.
Adeus.
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar costas um ao outro.
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer
o abraço.
Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da remembrança.
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos
cabelos.
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa do correio.
Sobra o telefone.
Tensão-telefone. Possibilidade de voz não póstuma.
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.
Sobra o telefone. Mudo.
Retininte?
Sobrarão as cartas. Sobra a espera.
Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória recente: na
praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos deseperados
de separação.
Sobra a separação.

Alexandre O'Neill

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

VRSA II


E eu caminhei no hospital
Onde o branco é desolado e sujo
Onde o branco é a cor que fica onde não há cor
E onde a luz é cinza

 E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra pedra


E isso inteiramente me bastava
E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava
E todo o dia vivi como uma cega

Porém no hospital eu vi o rosto
Que não é pinheiral nem é rochedo
E vi a luz como cinza na parede
E vi a dor absurda e desmedida

Sophia de Mello Breyner Andresen, 1995